terça-feira, 26 de junho de 2007

Carlão querido


Quando acenderam a fogueira
meu coração disparou
a fumaça serviu para encobrir a outra
Caetano perguntou
'Que mistério tem Clarice?'
e a cachaça escorreu pela garganta
queimando lembranças
apagando memórias ram
afagando minha saudade
puxa, como é difícil ser feliz.
Queria muito ultrapassar o limite
ser ousado, perspicaz
e com coragem dizer
Não sou nada
Sou uma letra de canção maluca
psicodélica?
Não, de vanguarda
Avante, avant garde
Ava Gardner
e essa merda de saudade
da tela do cinema
naquela tarde nas dunas
com Lawrence da Arábia.
Meu amor, onde estás?
Continuo dormindo com Miss Turner
cheirosa de sampoo anti pulgas
e o som da música me leva a você
diz Caetano, de novo...
Virgílio, vivo, menino quieto
na vigília esperando o amanhecer
que virá, amém!

Meu querido amigo, continuo lhe adorando como naquela vez em que subimos ao palco para nos apresentar, amargos de fel com vinagre, porém muito, muito artistas, na foto, Miss Turner, minha cadela Tina, que dorme comigo, pode?
Carlão
in Natal, diumenge, 24.06.2007

quarta-feira, 20 de junho de 2007

trilha, de hoje, para solidão


For no one - Anne sofie Von Otter & Elvis costelo
I'd Rather Go Blind - Clara Guimel
The great gig in the sky - Pink Floyd
La premier bonheur du jour - Mutantes
Moon over Bourbon Street - Sting
Across the universe - Jane Duboc
Eleanor Rigby - Aretha Franklin
Suzanne - Leonard Cohen
Glory Box - Portishead
Bess, you is my woman now - Baaba Maal
Wicky - Hoover
Hello goodbye - Milton Nascimento

terça-feira, 19 de junho de 2007

Diariamente

Canto dos cronópios


Quando os cronópios cantam suas canções preferidas, ficam de tal maneira entusiasmados que frequentemente se deixam atropelar por caminhões e ciclistas, caem da janela e perdem o que tinham nos bolsos e até a conta dos dias.
Quando um cronópio canta, as esperanças e os famas acorrem a ouví-lo embora não compreendam muito seu arrebatamento e em geral se mostram um tanto escandalizados. No meio da roda o cronópio suspende seus bracinhos como se segurasse o sol, como se o céu fosse uma bandeja e o sol a cabeça do Batista, de forma que a canção do cronópio é Salomé nua dançando para os famas e as esperanças que ali estão boquiabertos e perguntando-se se o senhor padre, se as conveniências.
Mas como no fundo são bons (os famas são bons e as esperanças bobas) acabam aplaudindo o cronópio, que se recupera sobressaltado, olha em redor e começa também a aplaudir, coitadinho.

(J.Cortázar - Histórias de Cronópios e de Famas )

quinta-feira, 17 de maio de 2007

O que era mesmo???

E eu queria mesmo era falar de Raul Bopp e do Cobra Norato...
Mas, Quintana "brotou" com o cocktail.

Cocktail Party


Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não Dessa tristeza criminosa dos que, em vez de se matarem,
fazem poemas.
Estou triste porque voces são burros e feios
E não morrem nunca...
Minha alma assenta-se no cordão da calçada
E chora,
olhando as poças barrentas que a chuva deixou.
Eu sigo adiante. Misturo-me a voces. Acho voces uns amores.
Na minha cara há um vasto sorriso pintado a vermelhão.
E trocamos brindes,
Acreditamos em tudo o que vem nos jornais.
Somos democratas e escravocratas.
Nossas almas? Sei lá!
Mas comos são belos os filmes coloridos!
(Ainda mais os de assuntos bíblicos...)
Desce o crepúsculo
E, quando a primeira estrelinha ia refletir-se em todas as poças dágua,
Acenderam-se de súbito os postes de iluminação!

(M. Quintana) (Ilustração de Vicente Vitoriano)

domingo, 13 de maio de 2007

MÃE


Mamãe,
eu ontem passei mal e me lembrei de voce.
Mamãe...

quinta-feira, 10 de maio de 2007

PRAZER


Acordar , ouvindo a versão final para piano solo da "Rhapsody in blue",
existe algo que dê mais prazer?
Só sexo.

sábado, 5 de maio de 2007

Cenário 27





As cores tem um ar levemente desbotado e as gaivotas mergulham aos gritos , junto aos banhistas, com seus calções coloridos e as toucas de borracha.
Na plataforma perimetral, os vigilantes, com seus capacetes reluzentes, apitam nas longas flautas de coral repreendendo algum movimento desordenado.
Há um ar de tranquilidade apesar da visão dos guardas. Os aqualoucos desenvolvem suas peripécias indiferentes aos apitos e às ondas, como num grande tanque em vez de mar.
Alguns cardumes de pequenos peixes luzidios aproximam-se e lhes fazem cócegas na barriga e nas nádegas semi-descobertas.
Não há sol, mas os imensos refletores diretamente dirigidos para a água, provocam uma gostosa ilusão de calor.
Vez ou outra, estouros esparsos são provocados pelas gaivotas que, atingindo uma certa altura, chocam-se com os refletores, que logo são substituídos por outros intactos.
Agora, os aqualoucos formam uma imensa pirâmide, a princípio desordenados e logo depois, simetricamente harmônicos, uns sobre os outros, até atingir o céu de vinil artisticamente pintado e preso sobre as cabeças dos bonecos , e, após atingí-lo, cortam uma abertura semi-circular por onde escapam todas as gaivotas e depois, tombam sob os tiros dos guardas da plataforma 5.

(Uma viagem com chá - Janeiro/75)

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Café com Kafka


Acordei ... e era Gregor Samsa.

terça-feira, 1 de maio de 2007

A morte de Vincent


Morre num domingo cinza e triste, como ele mesmo,
Vincent North.
Não deixa nada .
Passou pela vida como um sopro frio e azulado. Nem ao menos se despediu.
Abraçamo-nos, no último encontro e, como se estivesse previsto,
prometeu que voltaria e entregaria os originais da nossa história.
Como já havia prometido tantas vezes. Nossa história...
Sem registros.
Fica somente uma saudade bêbada e uma foto desfocada e cinza,
Como ele mesmo

domingo, 29 de abril de 2007

De Volta



Nem sabemos porque
Construimos e amamos.

Mutáveis, imperfeitos
O mundo nos oprime

E nos comprime o peito.

Dúplices e atentos
Lançamos nossos barcos
No caminho dos ventos.

E nas coisas efêmeras
Nos detemos.

(H.Hilst)

sábado, 28 de abril de 2007

Elefante branco


Surpresa. Surpresa.
Sou eu que me dou como presente de grego.
Cavalo de Tróia. Elefante branco.
Sou eu que me dou de boa vontade, para voce armar e brincar
nos esgotos.
Surpresa. Surpresa.
Sou eu que me dou como uma arca. Como um barco para se navegar
no sol. Como uma caixa de segredos.
Para voce me querer mais e mais para eu poder ficar feliz.

salut


Rien, cette écume, vierge vers
A ne désigner que la coupe
Telle loin se noie une troupe
De sirènes mainte à l'envers.

Une ivresse belle m'engage
Sans craindre même son tangage
De porter debout ce salut

Solitude, récif, étoile
A n'importe ce qui valut
Le blanc souci de notre toile
(S. Mallarmé)